13 de jul. de 2012

V. PAIXÃO E RESSURREIÇÃO

A secção V é o ponto de chegada do Evangelho, onde se realiza a Missão de Jesus de Nazaré, Messias, rei de Israel, Filho de Deus, Salvador do Mundo – a Paixão, a Morte e Ressurreição de Cristo.
O segredo que rodeia a resposta à questão central que o Evangelho propõe, será levantada: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pelo próprio perante o Sinédrio, e pelo centurião, ao pé da cruz. É também nesta parte que se verifica um isolamento completo de Jesus, abandonado pelos discípulos na hora da prisão. Porém, as mulheres compensam este abandono, acompanhando Jesus na Sua Paixão até à Ressurreição, assegurando a continuidade do testemunho.
A abundância de citações do Antigo Testamento serve para ajudar o crente, escandalizado pelo sofrimento de Jesus e toda a injustiça cometida, a compreender como esta Paixão pode entrar no desígnio de Deus.
As narrações dos outros Evangelhos apresentam muitas semelhanças com este relato, pelo que se pensa que Mc  pode ser o documento-base.


Mc 14, 1-2: Conspiração dos judeus

A Páscoa Judaica consistia na celebração e recordação da libertação de Israel da escravidão do Egipto, guiados por Moisés e a Aliança feita no deserto do Sinai. A Festa dos Ázimos (ou “pães sem fermento”) estava associada à Páscoa. Existiam dois momentos na celebração da Páscoa dos judeus: a imolação do cordeiro no Templo (no 14º dia de Nisan (Abril), na primeira lua cheia da primavera); comer o cordeiro numa refeição sagrada familiar ou em grupo. Desde o 14 até ao dia 21 não se podia comer pão com fermento.
A Páscoa de Cristo é a redenção que Cristo operou em favor de toda a Humanidade, cordeiro imolado por todos, morrendo e ressuscitando, libertando-nos todos do pecado para a vida eterna.



Mc 14, 3-9: Unção de Betânia

v. 3: Pensa-se que a mulher de Betânia seja Maria, irmã de Marta e Lázaro, amigos de Jesus, pelo que este episódio deve ser diferente do de Lc 7, 36-50, que refere-se a uma pecadora anónima.
v. 6: No Evangelho de São João, a indignação parte de Judas Iscariotes.
v. 7-8: “sempre tereis pobres entre vós”: existirão sempre pobres para ajudarmos, como diz em Dt 15, 11. Perante Deus vivo, que está quase a partir, o acto de Betânia é também um acto de misericórdia, não um desperdício. É louvar e glorificar o Messias que está entre nós, é um acto de fé em Cristo.
O acto da mulher de Betânia é um gesto de reconhecimento de Jesus como o Messias-Rei, algo que não é compreendido pelos discípulos. Jesus vê neste gesto uma antecipação da Sua morte, mas para a glória do Reino de Deus inaugurado na Sua ressurreição.

Mc 14, 10-11: Traição de Judas

Provavelmente, indignado pela situação anterior, Judas decide entregar Jesus. O preço, em Mt, é 30 moedas de prata, o preço que se pagava habitualmente por um escravo.

Mc 14, 12-16: Preparação da Ceia Pascal

Os judeus celebravam a Páscoa na sexta-feira. Os judens de Qumrân seguiam o calendário solar, pelo que celebravam na terça-feira. Esta última deve ter sido a escolha de Jesus.
v. 16: Jesus dá instruções aos seus discípulos sobre os preparativos da Páscoa, ocorrendo sempre tudo como o Mestre indica.

Mc 14, 17-21: Anúncio da traição de Judas

Nesta passagem, Jesus anuncia que vai ser traído. “Aquele que mete comigo a mão no prato.” Judas não é identificado directamente nesta passagem, mas tinha sido indicada a sua traição anteriormente.
v. 21: Embora aparente ser uma condenação, trata-se mais de uma lamentação de Jesus face à infeliz opção de Judas e das consequências da escolha que fez para a sua vida.

Mc 14, 22-26: Instituição da Eucaristia

A Última Ceia terá seguido o ritual da refeição pascal judaica. Durante esta, Jesus institui a Eucaristia, anunciando a Sua morte e ressurreição, inaugurando, assim, a Nova Aliança. Embora não esteja indicado em Mc, em Jo Jesus proclama também o novo mandamento da Lei de Deus, o mandamento do Amor.
Jesus torna-se o Cordeiro Pascal, sacrificado por todos, para nossa salvação. Pela Eucaristia, tomamos parte de Jesus, formando um só Corpo, a Igreja.
v. 22-25: Ao pronunciar as palavras “Isto é o Meu corpo”, “isto é o Meu sangue”, Jesus revela o perfeito conhecimento do sentido da Sua morte – a palavra “corpo” exprime a dádiva de si mesmo, e a palavra “sangue”  exprime a ideia de sacrifício. Mais do que a instituição da Eucaristia, a principal intenção de Mc é a de sublinhar a oferenda de sacrifício de Jesus, senhor da sua morte, ao revelar o sentido da mesma, selando definitivamente a Aliança entre Deus e os homens.

Mc 14, 27-31: Anúncio das negações de Pedro

v. 27-28: O abandono surge aqui como queda e tropeço do homem perante a adversidade. Mas Jesus reunirá todos novamente na Sua ressurreição.
v. 29: Pedro é sempre o primeiro a confessar Jesus. No entanto, nem Ele pode garantir a sua fidelidade a Cristo, pois a sua fé ainda é imatura. Porém, após a fraqueza e a adversidade, Pedro será a pedra onde Jesus fundará a Igreja Santa de Deus.

Mc 14, 32-42: Oração de Jesus em Getsémani

v. 32: Getsémani significa “lagar de azeite”. Situa-se no Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém.
v. 35-36: Jesus debate-se com uma angústia que só os iniciados no sofrimento poderão compreender. Pede ao Pai que afaste d’Ele este cálice, mas sobrepõe a vontade de Deus acima de tudo. Refere-se a Deus como Abbá = Pai, paizinho, um termo aramaico que só os filhos usam para chamar o pai num acto de ternura. Este termo não era usado pelos judeus nas orações. Segundo o exemplo e indicação de Cristo, os cristãos, filhos (adoptivos) de Deus, também se dirigirão a Deus como Pai.
v. 37-40: Os discípulos não conseguiram vigiar e orar, caíram no sono. Quando não estamos atentos, deixamo-nos levar pela letargia, e não escutamos Deus que nos chama.
Este episódio mostra como o homem encontra-se sempre entre duas forças opostas: Deus coloca nele um espírito voltado para o bem, mas ao mesmo tempo, o homem é “carne”, originariamente débil e fraco para resistir ao pecado. A hora do Getsémani é a hora da prova para os discípulos, que só com a força de Deus podem enfrentar. Mas deixam-se dormir e Jesus fica só.







Mc 14, 43-52: Prisão de Jesus

v. 45: O beijo do discípulo ao mestre era um sinal de dedicação – este gesto tornou-se símbolo de traição por Judas.
v. 47: Nos outros Evangelhos, é Pedro que corta a orelha e Jesus cura o criado em seguida. Nesta passagem, é dada a relevância à violência com que vêm ao encontro de Jesus para o prender.
v. 51-52: Pensa-se que o jovem envolto no lençol deveria ser o próprio Marcos, pois este incidente só é descrito neste evangelho. Também pensa-se que este jovem poderá representar a impossibilidade de acompanhar Jesus, entregue nas mãos dos inimigos.

Mc 14, 53-65: Jesus no tribunal judaico

Jesus é interrogado pelo sumo sacerdote Caifás. Jesus assume-se solenemente com Messias, Filho de Deus Bendito, Filho do Homem. Por isso, é acusado de blasfémia e condenado à morte pelo Sinédrio, que não o reconhece como o Messias esperado, não querendo ver a realização das Escrituras em Jesus Cristo.

Mc 14, 66-72: Três negações de Pedro

v. 68-70: Pedro tem medo e, por isso, nega o Senhor. O medo faz parte da natureza humana, só pela fé pode ser ultrapassado. A fé de Pedro encontra-se ainda muito “verde”, mas com todos estes acontecimentos e, sobretudo, com esta experiência, a sua fé vai amadurecer e Pedro será a pedra sobre a qual a Igreja será erguida.
v. 72: Lucas e João relatam que o Senhor fixa os olhos em Pedro e é isso que o leva a cair em si e chorar – o olhar e a bondade de Jesus que aceita a natureza de Pedro, mantendo o Seu Amor infinitamente misericordioso.

Mc 15, 1-5: Jesus no tribunal romano: Pilatos

v. 1: O Sinédrio era constituído por 23 membros de diversos grupos religiosos. Era o Supremo Tribunal que governava a comunidade judaica. Jesus é conduzido a Pilatos porque, durante a ocupação romana, os judeus não podiam aplicar a pena capital, apenas poderia ser feito pelo tribunal romano.
v. 2-5: Jesus não se defende perante Pilatos e não responde perante a acusação. O reino que Jesus anuncia não é deste mundo, por isso, provavelmente, surge a afirmação “Tu o dizes”, como resposta, não admitindo nem negando a acusação de Pilatos.

Mc 15, 6-15: Jesus e Barrabás

v. 7: Barrabás significa “filho do pai”.
v. 11: A multidão pede o indulto para Barrabás, preferindo-o a Jesus.
v. 14-15: Pilatos era o “Prefeito da Judeia”. Num acto de cobardia, apesar de perceber que as acusações a Jesus eram apenas por inveja, decide aceder e mandar flagelar e crucificar Jesus para evitar represálias. A crucifixão era um castigo de origem persa, normalmente aplicado pelos romanos, cartagineses e gregos. A flagelação precedia, normalmente, a crucifixão.
A cruz era já tida como símbolo da vida no Antigo Egipto. Com a morte de Cristo, torna-se o sinal cristão por excelência.

Mc 15, 16-20: Coroação de espinhos

Jesus foi humilhado e magoado, assumindo a missão e o papel que o Pai lhe confiara com sofrimento, em silêncio obediente ao Senhor.

Mc 15, 21-22: A caminho do Calvário

Simão de Cirene transporta a cruz de Jesus, porque este, provavelmente, após a flagelação, já não teria forças para carregar mais (Era apenas levada a parte transversal da cruz, a haste já se encontrava fixa no lugar das crucifixões). A acção de Simão de Cirene também poderá sugerir ao discípulo que este deve participar na paixão de Jesus.
v. 22: “Gólgota” significa “lugar do crânio, em aramaico. Em latim, chama-se “Calvário”. O Lugar do Crânio era uma pequena elevação de terreno fora dos muros de Jerusalém, a poucos metros da cidade.

Mc 15, 23-32: Jesus crucificado e escarnecido

Jesus sofre os suplícios que os profetas anunciavam que o Messias haveria de sofrer. Na narração da Paixão e da Ressurreição, dá-se o clímax da realização e revelação de Jesus como o Messias. Marcos descreve em pormenor o dia da morte de Jesus, distribuindo pelas 4 partes do dia os momentos mais significativos:
*** “Logo de manhã” – primeira hora (6-9h) – sentença do Sinédrio;
*** “Nove horas da manhã – terceira hora (9-12h) – crucifixão;
*** “Meio-dia” – sexta hora (12-15h) – trevas;
*** “três da tarde” – nona hora (15-18h) – morte.
v. 29: Abanar a cabeça era um gesto de desprezo da parte de quem o injuriava. O Senhor era injuriado, segundo Mc, por vários grupos: transeuntes, chefes e até os que também estavam crucificados; em Lc apenas um dos ladrões o fazia. Estas injúrias deixam o crente perante o escândalo da cruz e a fé no misterioso desígnio de Deus.




Mc 15, 33-41: Morte de Jesus

v. 33: Jesus morre às três da tarde, altura da oração da tarde no templo, e é crucificado à terceira hora, quando se reza a oração da manhã, e quando decorre a imolação dos cordeiros pascais: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
v. 34: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” - Sem quebrar os Seus laços com o Pai, Jesus identifica-se com o Messias sofredor, citando o Sl 22. É o grito do ressurgir da Fé perante um aparente abandono, pois nas dificuldades, ao questionarmos, reencontramos Deus.
v. 38: O véu do templo rasgou-se no Santo dos Santos - a Antiga Aliança antiga cede lugar à Nova Aliança, de livre e fácil acesso, mediante Jesus Cristo, rosto humano de Deus.
v. 39: O título “Filho de Deus” é proclamado pelo centurião, cuja afirmação prova que Jesus é verdadeiramente o Messias. Com o centurião, cumpre-se a Palavra de Jesus: o Reino de Deus será dado aos gentios, a um novo povo.

Mc 15, 42-47: Sepultura de Jesus

A partir deste ponto, as mulheres começam a assumir um papel fundamental como testemunhas da Ressurreição.
v. 42: A Preparação é o dia que precede o Sábado solene da celebração da Páscoa. Costuma remover-se os cadáveres dos supliciados antes do repouso sabático, que começava com o aparecimento das primeiras estrelas.
v. 43: José de Arimateia pratica uma das obras de misericórdia entre os judeus – enterrar os condenados. Em Mc, é simpatizante de Jesus, mas em Jo é mesmo um discípulo.
v. 47: Nesta passagem, as mulheres apenas observam, enquanto José trata de envolver o corpo.

Mc 16, 1-8: As mulheres vão ao sepulcro

v. 1: Como Jesus morreu pouco antes do Sábado, as mulheres só puderam tratar do corpo na altura mencionada.
v. 2: O primeiro dia da semana foi o dia em que começa a criação, e é designado, na linguagem cristã “Dia do Senhor” (Kyriake), porque neste ressuscitou Cristo Senhor.
v. 8: As mulheres sentem o “terror sagrado” perante a presença de um ser divino que lhes anuncia a ressurreição de Jesus.
O relato de Mc termina após este v. 8, sendo que a secção seguinte foi acrescentada posteriormente. Porquê Mc termina o relato neste ponto tão abrupto? Provavelmente, porque o relato estava concluído com o túmulo aberto, pois Jesus já tinha advertido os discípulos da Sua ressurreição na Última Ceia, não sendo necessário o anúncio pelas mulheres. O silencio destas teria, assim, uma dupla função: a sua perturbação face ao sucedido, pois os desígnios de Deus ultrapassam toda a compreensão; o silêncio faz com que a reunião dos discípulos na Galileia e o anúncio do Evangelho após a Ressurreição não se deva às mulheres, mas à iniciativa do Ressuscitado – “depois da minha ressurreição, preceder-vos-ei na Galileia” (Mc, 14, 28).

Mc 16, 9-18: Aparições de Jesus ressuscitado
Mc 16, 19-20: Ascensão de Jesus

Por análise literária e tradução, pensa-se que Mc não é o autor desta parte, tendo terminado abruptamente no v. 8. Existe um outro final de Mc, não canónico e menos antigo:
“Elas (as mulheres) informaram sucintamente Pedro e os seus companheiros de tudo o que lhes tinha sido dito. Em seguida, o mesmo Jesus, através deles, fez chegar do Oriente ao Ocidente a mensagem sagrada e incorruptível da salvação eterna.”
Este excerto não parece ter muita relação com todo o Evangelho. Também pode ser que Mc tenha feito um resumo, ou simplesmente, segundo os seus objectivos, era fundamental revelar Jesus como o Messias, não sendo relevantes as aparições de Cristo ressuscitado aos Apóstolos e o seguimento da história.
Este texto insiste na missão de levar o Evangelho ao mundo inteiro através do testemunho da palavra e das obras e sinais que o acompanham. A eficácia da palavra e dos sinais vem da acção de Jesus, elevado para junto de Deus.
O final de Mc continua a demonstrar a incredulidade e falta de fé: os Apóstolos só acreditam vendo. São enviados ao mundo para levar a Palavra de Deus a toda a humanidade.
O Ressuscitado não abandona o mundo, mas torna-se sempre presente, por meio da acção dos discípulos, estende a Sua acção a toda a parte.



O Evangelho de Marcos é difícil para nós, pois este apresenta-nos o escândalo da fé. Quando guiados por Marcos, refazemos o itinerário da nossa fé e somos insistentemente questionados se compreendemos bem a mensagem. O retrato do homem feito por Marcos é o de alguém que fraqueja, que abandona o Mestre, que duvida. Não é um retrato agradável, mas procura levar-nos à entrega a Deus para ultrapassar todas as nossas limitações pela força da Fé: é o próprio Deus que nos atira para o futuro.



















6 de abr. de 2012

IV. MINISTÉRIO EM JERUSALÉM: Mc 11-13

Até este ponto do Evangelho, Mc mostra Jesus ensinando os Seus discípulos sobre a Sua pessoa, obra e missão. Segue-se a realização desta missão em dois tempos: o confronto com Jerusalém (11-13) e a paixão, morte e ressurreição (14-16).

O confronto com Jerusalém está organizado no tempo e no espaço em três dias ou jornadas, em que as duas primeiras têm a ver com a chegada e a entrada na cidade e no Templo, e o terceiro dia consiste em ensinamentos que colidem com o judaísmo:

- 1ª jornada: entrada em Jerusalém;

- 2ª jornada: maldição da figueira, expulsão dos vendedores do Templo; explicação da maldição da figueira;

- 3ª jornada: ensinamentos polémicos (Mc 12).

Mc 11, 1-11: Entrada messiânica em Jerusalém

Segundo os Evangelhos sinópticos, é a única entrada em Jerusalém de Jesus. Jesus entra como os reis do AT, montado num jumento, e é aclamado como o Salvador e como Messias-Rei. Esta entrada vai marca a ruptura com o judaísmo, que situava a centralização do poder em Jerusalém: o Messias-Rei vem para tomar posse do templo, local da teocracia de Israel.

v. 3: Jesus refere-se a si mesmo como “Senhor”, termo que só é usado em Mc. Esta designação está normalmente reservada a Deus ou ao Messias-Rei - os cristãos designam assim Jesus ressuscitado.

v. 7-8: Ao entrar como os reis do AT, Jesus manifesta-se como o Rei messiânico que vem trazer a salvação e a paz a Jerusalém.

v. 9: A palavra “Hossana” significa “vem em auxílio” e/ou “por favor, concede a salvação” - Jesus, o Salvador, vai realizar a salvação do seu povo.

v. 11: Após entrar em Jerusalém, Jesus retira-se para Betânia, a 4 km de Jerusalém, junto da família de Lázaro, Marta e Maria. Em Mc, ao contrário dos outros Evangelhos, Jesus apenas observa a cidade, não expulsando logo os vendedores, mas apenas quando regressa, mais adiante. Isto demonstra que Jesus teria estudado este acto e que não seria um impulso do momento.


Mc 11, 12-14: A figueira estéril

À figueira estéril pode atribuir-se o sentido figurativo da improdutividade da casa de Israel – o Templo - no que diz respeito à salvação: Jesus condena um culto vazio de boas obras, e por isso, a figueira não dá frutos, pois o culto não tem raízes assentes numa fé legítima e verdadeira em Deus.

Mc 11, 15-19: Purificação do templo

Este episódio está enquadrado pelos dois episódios da maldição da figueira por uma razão muito específica. A intenção de Mc seria mostrar a incapacidade do culto judaico de reconhecer o Messias e de dar frutos dignos do Reino de Deus que Jesus vem instaurar, pelo que o Templo, seu símbolo máximo, não perduraria por muito mais tempo, algo que depois é afirmado no discurso escatológico.

v. 17: “Covil de ladrões”, refere-se, sobretudo a todos os que se refugiam no Templo, vivendo um culto enganador, que daria uma falsa segurança. O profeta Jeremias (Jr 7, 11) já se referia aos judeus que dissimulavam no Templo a sua conduta pouco própria, escondendo-se atrás de rituais no Templo.

Jesus vem tomar posse do Templo com autoridade e renová-lo, para acolher todos os povos. Os vendedores costumavam instalar-se no Pátio dos Gentios, onde era permitido o acesso a todos os não-judeus. Ao purificar esta zona do Templo, Jesus mostra-nos que Deus vem para todos e não apenas para os judeus, por isso, até o Pátio dos Gentios é um espaço sagrado, que deve ser respeitado e não ser local de venda.

A expressão “para todos os povos” é específica de Mc e demonstra a sua insistência na abertura do Templo para todos, procurando quebrar as fronteiras impostas pelo judaísmo.

Ao expulsar todas as actividades profanas e restaurar a pureza do espaço, Jesus espera que, deste modo, a terra inteira seja consagrada a Deus como seu Templo.

v. 18: Apresenta a oposição, já presente anteriormente, entre o povo, que fica maravilhado com os ensinamentos, e os sacerdotes e doutores da Lei, que procuram matar Jesus.

Mc 11, 20-26: A figueira seca. Fé e oração.

Na realidade, não é a figueira que está em jogo, mas o Templo. Como este não corresponde ao que Deus esperaria, será incapaz de dar os frutos que deveria, pelo que não perdurará (13,2).

O exemplo da figueira serve para afirmar a importância de uma fé orante. Quem recebe a Palavra e crê, não tem de ter medo, nenhum mal lhe acontecerá, pelo que é importante rezar a Deus para manter a fé. Mas é  também preciso ter o coração pronto para receber, sem rancores e ódio, pelo que é fundamental o perdão ao próximo. Como nos pode perdoar o Pai se não perdoamos quem nos ofende?



Mc 11, 27-33: Autoridade de Jesus

Para reconhecer a autoridade de Jesus, é preciso fé e humildade, que os sacerdotes e os doutores do Templo não tinham, apenas possuíam preocupações políticas. Para Jesus lhes dar uma resposta, precisavam reconhecer a Sua autoridade, algo a que não estavam abertos devido à sua agenda política e ao seu orgulho, o que não os abria à Sua Palavra. Não valeria a pena dar-lhes uma resposta, pois nunca a compreenderiam ou aceitariam.


Mc 12, 1-12: Parábola dos vinhateiros homicidas

A história da vinha representa a história do amor e fidelidade de Deus para com o Seu povo, que a estes envia mensageiros, os profetas e, por último o seu Filho amado.

v. 1: O dono é Deus e a vinha é o povo de Israel. Os vinhateiros são os fariseus, sumos-sacerdotes, escribas, anciaos e os doutores da lei, responsáveis pelo legado espiritual do povo e pelo cumprimento da Lei do Senhor.

v. 2-5: Os servos representam os profetas enviados por Deus, que raramente eram ouvidos, sendo maltratados e até mortos ao longo da história de Israel.

v. 6-9: O filho do dono da vinha é Jesus. Deus conduz o Seu próprio Filho ao povo, mas aqueles que estão desejosos de poder, vêem n’Ele uma ameaça e matam-no.

v. 10-11: Jesus pretende apelar à conversão através desta parábola, procurando que cada um reconhecesse o seu papel na parábola e se arrependesse. A pedra angular é, na arquitectura a pedra de fecho da estrutura de um templo. O Messias, pedra angular, é fundamento e remate do Reino de Deus.

Mc começa a levantar o véu sobre o segredo messiânico. Jesus é o Filho de Deus que os responsáveis de Israel vão matar, mas que Deus glorificará na Ressurreição.


Mc 12, 13-17: Tributo a César

Jesus ensina nesta passagem a importância de respeitar e separar a política da soberania absoluta de Deus. Os impostos são assuntos relacionados com política e gestão de governo, sobre estes Jesus não se preocupa, pois para Ele o fundamental são as questões da Fé e o Amor de Deus.


Mc 12, 18-27: A ressurreição dos mortos

Os saduceus recordam a Lei do Levirato, referente a viuvez e descendência.

Ao afirmar que Deus é dos vivos e não dos mortos, após mencionar os três patriarcas – Abraão, Isaac e Jacob – Jesus fala de uma vida nova, a ressurreição. Na vida nova da ressurreição, seremos todos como anjos no céu, as leis e os laços terrenos de nada servirão.

Mc 12, 28-34: O mandamento do amor

A pergunta tinha razão de ser, face à grande quantidade de leis e preceitos existentes na altura. Jesus responde citando o “Chemá Israel” (“Escuta, Israel”) – oração privilegiada do devocionário judaico, que iniciava a liturgia da sinagoga, recitado três vezes por dia pelos judeus, virados para Jerusalém.

O amor a Deus e ao próximo está acima de qualquer ritual e é insubstituível.

Mc 12, 35-37: O Messias, Filho e Senhor de David

A expressão “filho de David” significa que Jesus nasceria na casa de David, neste caso, tendo José, um descendente de David, como pai adoptivo. Mas se David chamava “Senhor” ao Messias, referindo-se em salmos e no conhecimento de profecias, como pode este ser seu filho? Cristo é superior a David, como o próprio reconheceu.

O título de “Filho de David” não está, para Mc, à altura do mistério de Jesus. Jesus é o Senhor de David e de todos os homens.


Mc 12, 38-40: Condenação do farisaísmo

Jesus adverte aqueles que se aproveitam dos ritos e leis sagradas e distorcem a seu favor, para se engrandecerem, pois o mal que fizerem não será esquecido e terá repercussões.


Mc 12, 41-44: A oferta da viúva pobre

O que oferecemos a Deus mede-se em valor pelo espírito em que é oferecido e consoante a privação que representa. Por isso, a viúva deu muito mais do que os outros, porque deu tudo quanto possuía.


Mc 13, 1-2: Discurso escatológico

Nesta passagem, inicia-se o discurso escatológico ou apocalíptico, que segue até ao final do capítulo. Refere-se à destruição do templo, à ruína de Jerusalém, às perseguições e vale para todos os tempos críticos da história.

O templo que Salomão edificou, e que foi reconstruído após o exílio da Babilónia, foi restaurado por Herodes, o Grande. Pouco depois da inauguração, foi completamente destruído pelos romanos, no ano 70, 1030 anos após o primeiro templo. Com ele, desapareceria o símbolo da teocracia de Israel. É o fracasso de toda a pretensão de restaurar o reino de David.


Mc 13, 3-8: Sinais precursores

v. 3: André encontra-se nesta passagem associado aos três discípulos que são testemunhas dos grandes momentos da vida de Jesus: ressurreição da filha de Jairo; transfiguração; oração no Getsémani. Também terá um papel determinante e será martirizado na história da Igreja primitiva cristã.

v. 5-8: Recomenda atenção para não se deixar levar por falsos Messias e aos acontecimentos, mas não será o fim: a mensagem final é de esperança no Senhor.

O acontecimento central é a Parusia ou vinda do Filho do Homem, sinal de libertação para os eleitos. Deus é o único Senhor da História, só Ele a fará terminar e quando o quiser.

Mc 13, 9-13: Perseguição aos discípulos

Continua na sequência do texto anterior. A Palavra deve ser levada a todas as nações, e o Espírito Santo falará pelo missionário. Apesar de todas as guerras e desentendimentos, mesmo entre família, quem manter a fé em Deus será salvo.

Mc 13, 14-20: Destruição de Jerusalém

Esta passagem é uma profecia sobre a destruição de Jerusalém e do Templo, que ocorre cerca do ano 70.

v. 14: A referência “abominação da desolação” está relacionada com a colocação da estátua de Zeus no altar do templo de Jerusalém.

Este anúncio de ruína definitiva do Templo segue uma direcção própria da universalidade de Mc: não faz sentido restaurar o reino de David, que defendia um culto que excluía os pagãos. 

Mc 13, 21-23: Falsos messias

Jesus volta a advertir para estarmos atentos aos falsos profetas e falsos Messias que procuram desencaminhar-nos do caminho da Fé.


Mc 13, 24-27: Vinda do Filho do Homem

No ponto alto do discurso, Jesus fala sobre a Parusia, onde virá reunir os eleitos de toda a terra – universalidade dos escolhidos.


Mc 13, 28-32: Sinal da figueira

Da mesma maneira que interpretamos os sinais da natureza para reconhecer a mudança das estações, também devemos estar atentos aos sinais da vinda do Senhor, para nos prepararmos devidamente e não desfalecemos na fé.

Nem Jesus conhece a hora, só Deus Pai. Jesus volta a afirmar a Sua pequenez diante do Pai, tal como em 10,18; algo que é exclusivo em Mc.

Mc 13, 33-37: Vigilância

A vigilância é uma atitude cristã por excelência: há que dar atenção aos sinais dos tempos, a fim de que a fé não se perca perante os perigos e adversidades. A Parusia não deve dar lugar ao medo ou ansiedade, mas sim, ser uma mensagem de esperança.

v. 35: Jesus refere quatro vigílias ou partes da noite que eram, na Antiguidade: à tarde - 18-21h; à meia-noite - 21-24h; ao cantar do galo - 0-3h; de manhãzinha - 3-6h.

Em suma, Jesus adverte os cristãos para não se deixarem desorientar por falsos testemunhos, tendo consciência das difíceis condições que os espera na luta pelo Reino de Deus, mas com uma mensagem final de esperança: quem perseverar até ao fim será salvo.

5 de abr. de 2012

III - VIAGENS POR TIRO, SÍDON E DECÁPOLE: Mc 8-10

Mc 8, 27-30: Confissão messiânica de Pedro

Com esta passagem, inicia-se uma nova secção, em que Jesus dedica-se mais à formação dos discípulos para a missão que teriam de desempenhar, bem como prepará-las para o que ia acontecer, através dos anúncios da Paixão.

v. 27: Cesareia de Filipe (actualmente, Banias) é um local onde acontecem dois eventos determinantes em relação a Pedro:
- onde Pedro faz a confissão messiânica;
- onde Jesus anuncia que fundará a Sua Igreja em Pedro.

v. 27- 29: Jesus faz uma dupla pergunta: o que diz a multidão sobre a Sua identidade - é o maior dos profetas; o que dizem os discípulos sobre si (personificados em Pedro) – é o Messias. Esta duplicidade de respostas de acordo com quem responde distingue claramente a multidão dos discípulos: a multidão reconhece em Jesus algo de especial (profeta), mas não compreende verdadeiramente a Sua identidade, pois ainda não aderiu à Sua Palavra, ainda não entregou completamente o Seu coração; os discípulos, que caminham com Jesus, que vivem com Jesus e escutam a Sua Palavra, começam a conhecer a verdadeira natureza de Jesus – o Messias.

v. 29: A palavra “Messias” vem do aramaico e significa “ungido”. A palavra equivalente em grego é “Cristo”.
Só a quem se entrega de coração a Cristo pode reconhecê-l’O como o Messias, e n’Ele ser salvo. Simão Pedro personifica todos a quem se põe a questão da identidade de Jesus e que procuram dar resposta: no fundo, Pedro representa cada um de nós no nosso caminho de Fé ao encontro de Jesus Cristo nas nossas vidas.

v. 30: Jesus insiste no segredo messiânico, pois só pela Paixão e Ressurreição este título poderá ser verdadeiramente revelado e compreendido.



Mc 8, 31-33: Primeiro anúncio da Paixão

O primeiro anúncio da Paixão marca o início dos ensinamentos e revelação que se referem à Paixão e Ressurreição. Por este anúncio, começa o debate central do livro: a correcta interpretação da missão de Jesus segundo as perspectivas de Deus.

São três anúncios no total e decorrem até à chegada a Jerusalém. São constituídos por três partes:
1) Anúncio;
2) Incompreensão dos discípulos;
3) Ensinamentos de Jesus:
- A missão de Jesus não é a de um Messias triunfante, mas a de um servo sofredor;
- O caminho de Jesus é o caminho que os discípulos devem seguir.
Vai-se verificando um crescendo na informação dada de anúncio para anúncio.

v. 31: O título “Filho do Homem” significa o Homem verdadeiro, o representante da humanidade, aquele por quem o julgamento dos homens se irá realizar.

v. 33: Pedro representa todos os discípulos nos seus momentos de fraqueza: estes devem procurar seguir Jesus pelo caminho que Deus lhes traça e não  seguir segundo a vontade dos homens.


Mc 8, 34- 9, 1: Condições para seguir Jesus

Primeiro ensinamento de Jesus, após o anuncio da Paixão.

v. 34: O caminho da cruz que Jesus anuncia é o caminho de quantos o aceitam. É um caminho de descoberta do que é ser discípulo. É para todos, por isso, é anunciado publicamente à multidão.

v. 35: Paradoxo - a única maneira de salvar a própria vida é perdendo-a, por Cristo, pelo Evangelho. Cristo traz a salvação, pela Sua morte e Ressurreição. Para nascermos nesta nova vida, precisamos morrer na nossa existência anterior, renunciar ao que éramos e tornarmo-nos novos seres em Cristo.

v. 38-39: A referência à vinda do Filho do Homem ou “parusia” é um estímulo à esperança e, sobretudo, uma exortação à vigilância. “Não experimentarão a morte” poderá ser uma referência à ressurreição.
Acreditar em Cristo é reconhecer n’Ele o Filho de Deus na Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Esta fé exige seguir os seus passos, agir, comportar-se, dar-se como Ele se deu, para nos salvar.


Mc 9, 2-10: Transfiguração de Jesus

Existem três quadros ao longo do Evangelho em que Pedro, Tiago e João são testemunhas:
- Ressurreição da filha de Jairo – poder de Jesus sobre a morte;
- Transfiguração de Jesus – glória da Ressurreição antecipada;
- Agonia no Getsemani – modo segundo o qual Jesus caminha para a glória.
A Transfiguração é a manifestação antecipada da glória do Filho do Homem.

v. 2: O monte  mencionado seria provavelmente o Monte Tabor ou o Hermon. O monte é um lugar elevado, lugar privilegiado para o encontro com Deus.

v. 3: As vestes brancas são um sinal da glória celeste do Filho do Homem.

v. 4: Elias e Moisés surgem em estreita relação com Jesus: Jesus assume e aperfeiçoa a missão profética de Elias; Jesus assume e aperfeiçoa a missão legislativa de Moisés.

v. 5-6: A visão dos discípulos é assombrosa e entram em êxtase: é um “medo” sagrado que o homem sente quando presencia o divino. Pedro mostra este êxtase (“não sabia o que dizia”). As tendas podem ser uma alusão à festa dos Tabernáculos, uma festa de esperança, sinal da vinda do Reino.

v. 7: Dá-se uma teofania, como no Baptismo, mas agora, a voz dirige-se aos discípulos, revelando Jesus como verdadeiro Deus: “Escutai-O”.

v. 8: A visão é efémera e provisória, pois o caminho da cruz tem de ser feito, pelo que ainda não chegou a hora de tudo se concretizar.

v. 10: Ao discutirem a Ressurreição, nota-se que os Apóstolos não compreendem o que pode significar, algo que só fará sentido quando Jesus concretizar em pleno a Sua missão de servo sofredor e ressuscitar.

A Transfiguração não é apenas uma revelação de Jesus como divino, mas sobretudo, serve para mostrar que não se chega à glória a não ser pelo dom da própria vida.



Mc 9, 11-13: A vinda de Elias

Segundo as profecias, o profeta Elias viria para preparar a vinda do Messias. João Baptista é Elias que regressa para preparar o caminho e passa por uma missão de sofrimento, dando a Sua vida: a chegada do Reino de Deus deve ser esperada no seguimento da cruz.


Mc 9, 14-29: O jovem epilético

v. 18: Os sintomas descritos são concordantes com epilepsia. As doenças de natureza mental ou neurológica assumiam-se como provocadas por possessão de espíritos malignos na Antiguidade.

v. 19: A geração incrédula consiste nos discípulos – que não conseguiram expulsar o espírito maligno do jovem – e na multidão, que não acredita na força da fé que conduz à salvação.

v. 23-24: Tudo é possível a Deus em favor daquele que crê. O pai do jovem, ao abrir-se inteiramente à fé em Cristo, permite abrir o caminho para a salvação do seu filho.

v. 28-29: A força da oração é essencial a todo o discípulo, pois este tem necessidade de estar em sintonia perfeita com Deus para conseguir libertar do mal quem vai ajudar.


Mc 9, 30-32: Segundo anúncio da Paixão

v. 30: O segredo da viagem para a multidão servia para Jesus ter o tempo e as condições necessárias para preparar os discípulos para o que se ia passar quando chegasse a Jerusalém.

v. 32: O facto de os discípulos não entenderem o que Jesus queria dizer mostrava que ainda não compreendiam verdadeiramente a missão do Messias. Esta compreensão só virá após a morte e ressurreição de Cristo.


Mc 9, 33-37: O maior no Reino

Ensinamento que se segue ao segundo anúncio da Paixão.

v. 33-34: O desejo de ser o maior para os discípulos demonstrava que esperavam um Messias temporal, um Rei terreno, pelo que estavam à procura de protagonismo no novo reino terreno que julgavam que iam surgir.

v. 35: Aos Doze em especial, Jesus revela que, para se ser o maior no Reino de Deus, deve se “ser o último e servo” em palavras e gestos: servir com dedicação e humildade a todos os que precisam.

v. 36-37: Jesus dá um exemplo ambíguo: a criança, pela sua dependência, disponibilidade (pequenino) e fragilidade representa os discípulos, que devem ser acolhidos para que o próprio Jesus seja acolhido na vida de quem os recebe; por outro lado, a criança representa os desprotegidos, os pobres e os marginalizados, que devem ser aqueles que o discípulo deve receber e assistir. A relação é um pouco complexa, pois Jesus é quem acolhe, mas também se faz acolhido por intermédio destes “pequeninos”, mostrando a grandeza eminente do mais pequeno no Reino de Deus.


Mc 9, 38-41: Quem não é contra nós é por nós

Quem age por Cristo, ainda que não siga a Igreja fundada, é também de Cristo, fará parte do Reino de Deus, pois também está a contribuir para a sua construção.

v. 38: O homem que age em nome de Jesus sem ser Seu discípulo mostra a acção de Cristo fora das fronteiras visíveis da Igreja.

v. 39: A acção feita em nome de Jesus e a palavra acerca de Jesus podem existir fora do grupo dos discípulos de Jesus, e esta será verdadeira se incidir na fé em Cristo.

v. 40: A reacção de João é de deter o monopólio do poder de Cristo. Jesus responde ensinando-lhes que, se a obra vem de Deus, é verdadeira e não se pode impedir. O Reino de Deus é muito maior e a função dos discípulos é a de servir o Reino e não procurar deter poder para si.

v. 41: O copo de água pode fazer alusão a um gesto de piedade para com um cristão desprezado e maltratado, podendo aludir às perseguições vividas pelos primeiros cristãos.

Os Doze são postos em cena nestes ensinamentos por um motivo muito especial. São aqueles que Jesus escolheu para viver com Ele e colaborar na Sua obra, sobre os quais a primeira comunidade crista se estruturou. Devido à autoridade que irão ter, Jesus insiste em lembrar da sua condição de servos de todos no Reino de Deus.


Mc 9, 42-50: O escândalo

 “Escandalizar os pequeninos” refere-se aos próprios discípulos. Entre os crentes, há alguns que não são tidos em conta e escandalizar um deles é muito grave aos olhos de Deus, de tal forma que quem o faz, seria preferível perder uma mão, um pé, um olho… Estes “pequeninos” também podem ser os que são tentados a abandonar a Igreja porque esta não se reforma, ou aqueles que querem fazer parte da Igreja e não conseguem porque o nosso comportamento mantém-nos de parte e exclui-os.

v. 42-48: O gesto de cortar e arrancar significa evitar e suprimir tudo o que possa ser ocasião de pecado. A Geena era um vale situado a sudoeste de Jerusalém, onde se queimava o lixo – este tornou-se uma imagem associada ao inferno.

v. 49: “Todos serão salgados com fogo”: o discípulo tem de passar pela provação para se tornar agradável a Deus e útil aos irmãos.

v. 50: O sal é um tempero, sem ele a comida não tem sabor. Da mesma maneira, se tivermos sal, ou seja, consistência na nossa fé, não haverá ocasião para escândalo e assim viveremos em paz uns com os outros.


Mc 10, 1-12: Jesus e o divórcio

v. 4-5: A dispensa matrimonial concedida por Moisés devido à dureza dos corações rabínicos não se pode sobrepor às origens. Foi uma solução provisória em face de um problema da época.

v. 7-9: Deus fez o homem e a mulher para se unirem e serem um só de forma que nada os deverá separar, pois foram unidos por Deus. “uma só carne” significa tornados num só SER.

v. 12: Mc terá como alvo leitores de uma comunidade em que a mulher também pode divorciar-se, daí a menção de divórcio assumido por uma mulher.


Mc 10, 13-16: Jesus e os pequeninos

Só com a humildade e a simplicidade de uma criança, que tudo acolhe sem questionar, é que podemos acolher Jesus: sem medo, de coração aberto, despertos e entusiasmados com a novidade da Sua Palavra, recebendo com alegria o Reino de Deus.


Mc 10, 17-22: O homem rico

Cumprir os mandamentos faz parte do caminho, mas não chega para alcançar a vida eterna, o Reino de Deus. É preciso deixar tudo o que nos prende e nos impede de acolher Deus e o Seu Amor no nosso coração.
Este episódio serve para uma instrução específica dada aos discípulos, divida em duas partes: o perigo das riquezas e a recompensa do desprendimento.


Mc 10, 23-27: Perigo das riquezas

As riquezas, vistas como uma bênção no AT, podem trazer perigos ao afastar o coração do homem do mais importante – o Amor a Deus e ao próximo. Para receber o Reino de Deus, temos de abdicar da nossa vida para ganhar a plenitude com Deus, ganhar a nossa alma.

v. 26-27: A salvação parece impossível de atingir. Na realidade, não podemos entrar no Reino de Deus pelos nossos próprios meios, só Deus nos pode fazer entrar. A única coisa que podemos fazer é acolher o dom que o Pai nos dá como uma criança, desfazermo-nos de tudo o que tínhamos e éramos, para nascermos de novo no Reino que Deus escolheu para nós.


Mc 10, 28-31: Recompensa do desprendimento

Esta passagem é a conclusão das duas anteriores. Jesus e o Seu Reino são o valor absoluto – tudo o resto, bens, terrenos e família, vêm em segundo plano. O missionário, o discípulo deve entregar toda a sua vida a Deus para não haver obstáculos à Sua missão.

v. 30: Mc poderá referir-se à experiência da Igreja primitiva, onde havia tribulações e perseguições, mas também o ganho de uma família muito maior, que se reflecte nos laços de afeição e de ajuda que existiam entre os cristãos (“receberá cem vezes mais”), e a vida eterna futura.

v. 31: Os primeiros, segundo os critérios na Terra, são as pessoas com poder e visibilidade. Estes poderão ser os últimos segundo os critérios do Evangelho, pois no Reino de Deus, os bens terrenos não têm qualquer valor, apenas os bens espirituais.


Mc 10, 32-34: Terceiro anúncio da Paixão

“Subindo para Jerusalém”: a ida à Cidade Santa para adorar, sacrificar e celebrar o Senhor no Templo, era um acontecimento importante na vida de todos os judeus.
Pela terceira vez, Jesus anuncia que será um Messias sofredor mas, pela petição feita pelos filhos de Zebedeu, compreende-se que os Apóstolos ainda não compreendem o que Ele quis dizer.


Mc 10, 35-45: Poder e serviço

Ensinamento que se segue ao terceiro e último anúncio da Paixão.

v. 38: “beber o cálice”, simboliza o sofrimento por que Jesus irá passar; “receber o baptismo” – assim como o baptizando é imerso nas águas, assim Cristo será submerso num mar de sofrimentos.

v. 40: Jesus apresenta-se como o servo do Senhor, não podendo tomar as decisões de Deus, mas unicamente fazer a Sua vontade. Não pode, assim, atender ao pedido de Tiago e João, pois a vontade de Jesus não se sobrepõe à vontade do Pai.

v. 43-45: Quem quiser ser o maior, faça-se servo de todos. O melhor governante é aquele que serve e que procura o melhor para o seu povo, abdicando dos seus interesses pessoais. Por isso, no Reino de Deus, onde o Amor é o valor máximo, o maior é o que mais ama, é o que mais serve.

Este serviço não é sinónimo de se apagar diante dos outros. É servir verdadeiramente a Deus através de uma acção visível mas humilde. Cristo foi um homem público e o Seu exemplo foi testemunhado por muitos. Também nós devemos exercer de forma visível, mas sempre humildemente o nosso serviço, servindo como exemplo para todos.


Mc 10, 46-52: Cura do cego de Jericó

Este é o último milagre relatado por Mc. O cego chama-se Bartimeu: este quer ver e, para isso, chama Jesus com insistência. A cura de Bartimeu não requer qualquer gesto, ao contrário dos outros milagres, porque basta a fé para ser salvo. Após conseguir ver, o cego segue Jesus para Jerusalém. O milagre não vem apenas de Jesus, mas sobretudo da fé de Bartimeu: sem esta, ver não era possível.

Bartimeu é o exemplo do verdadeiro discípulo: é incapaz de seguir Jesus por si próprio - lembrar a incompreensão dos discípulos face aos anúncios da Paixão). Mas Jesus cura e ilumina os seus discípulos, tornando-os capazes de O seguirem.

A cura do cego como último milagre marca uma viragem na narrativa de Mc. Bartimeu refere-se a Jesus como “Filho de David”, que poderá ser um prenúncio da revelação de Jesus como o Messias através da Paixão, morte e Ressurreição.