19 de abr. de 2011

IIª PARTE: A COMUNIDADE NO REINO DE DEUS (16-28)


Introduzida pelo episódio-chave da confissão de Pedro (16, 13 –20), esta secção vai consistir na revelação do Filho pelo Pai através da comunidade. Mas esta comunidade também, muitas vezes, pela sua própria fraqueza, procura afastar Jesus da Sua missão.


Ensino sobre a Igreja (Mt 16-20)

Sobre Pedro, Jesus vai construir a sua Igreja, e nesta secção, durante a caminhada para Jerusalém, Jesus vai transmitir ensinamentos sobre o que deve ser esta Igreja.
Esta secção divide-se em três partes:
1) A Igreja e a Cruz (Mt 16-17);
2) O discurso sobre a Igreja (Mt 18);
3) Do poder ao serviço (Mt 19-20).


1 – A Igreja e a cruz (Mt 16-17)
Esta parte organiza-se em torno dos anúncios da Paixão, reunindo os discípulos que aceitam tomar a Cruz do Mestre.

Primeiro anúncio da Paixão (Mt 16, 21-23)
Condições para seguir Jesus (Mt 16, 24-28)
Estas duas passagens reflectem sobre a vida do cristão: é uma caminhada no seguimento do Crucificado, na renúncia da própria vida. Compreende três cenas:
1) Aos que acabam de reconhecer Jesus como o Cristo, Ele anuncia a Sua Paixão;
2) Pedro protesta e é repreendido por Jesus – o caminho é difícil de aceitar por parte do discípulo;
3) Jesus dirige-se aos discípulos para os ensinar sobre a Igreja: Seguir Jesus é aceitar a cruz e renunciar; considerar-se como o centro de tudo é perder a sua vida; o Filho do Homem julgará cada um consoante as suas obras.
Ao ritmo do texto:
(v.21) “A partir desse momento”, Jesus começa a anunciar o mistério glorioso e sofredor que o esperava em Jerusalém, sendo este o primeiro de três anúncios da Paixão e Ressurreição do Senhor, o que realça a importância deste acontecimento e um ponto de viragem no Evangelho.
(v.23) Jesus rejeita as sugestões de Pedro tal como resistiu às tentações no deserto. Pedro estaria a ser “pedra de estorvo” ou “escândalo”, afastando-o do caminho que tinha de seguir com as suas sugestões.
 (v.24) Seguir Jesus é uma opção radical que exige tudo do discípulo. Exige tomar a sua própria “cruz”, a sua vida, e dedicar esta plenamente ao Reino de Deus. Querer salvar-se a si mesmo, pondo a salvo as seguranças materiais, é perder-se de Deus.
(v.27) É Jesus quem julga cada um, e retribuirá segundo as suas obras.

Transfiguração de Jesus (Mt 17, 1-9)
A Transfiguração vem esclarecer os três anúncios da Paixão de Jesus, que irá acontecer em Jerusalém, porque revela a divindade de Jesus a quem o discípulo deve escutar.
(v.1) Não é dada a localização do “alto monte”, porque Jesus é a verdadeira montanha da revelação de Deus. No entanto, a tradição situa a Transfiguração no monte Tabor, entre o Monte Horeb e Sinai, ligados às figuras do AT, Elias e Moisés.
Os discípulos que acompanham Jesus são os que estarão com Ele no Getsémani.
O alto monte em que Deus glorifica o Seu Filho pela Transfiguração opõe-se ao monte “muito alto” onde o diabo oferecia a Jesus todos os reinos do mundo.
(v.2) A Transfiguração de Jesus faz d’Ele um personagem celeste.
(v.3) Moisés e Elias representam a Lei e a Profecia, nas quais assentava a Antiga Aliança.
(v.4) A indicação de seis dias no v.1 pode estar relacionada com a aparição da glória divina do Sinai a Moisés em Ex 24, 16, ou a Festa das Tendas com o jejum de expiação que a precedia.
(v.5) A nuvem é sinal de teofania: da presença de Deus manifestada através de um fenómeno atmosférico. No baptismo, a voz vinda do Céu designava Jesus como Filho dirigindo-se apenas a Ele; na Transfiguração, a voz dirige-se a todos os discípulos.
(v.9) Com a sua ordem, Jesus pretende que a sua missão não seja interpretada de uma forma terrena, e por isso pede o segredo messiânico aos discípulos. A expressão “Filho do Homem” é uma designação que Jesus atribui a si mesmo como sendo um ser humano mas, também, o ser celeste a quem Deus confere a realeza e o juízo universais.

A vinda de Elias (Mt 17, 10-13)
Elias foi um profeta do AT que subiu ao céu e que deveria voltar à terra para preparar o povo para acolher o Messias. Jesus identifica-o como sendo João Baptista, que foi morto por Herodes. Ambos estão unidos na mesma missão sofredora e ambos são rejeitados.

O jovem epiléptico (Mt 17, 14-21)
Com a cura do epiléptico, Jesus convida a Igreja a ultrapassar a fraqueza da sua fé (dificuldade dos discípulos em curar o jovem), antes de produzir milagres brilhantes.
(v.18) Mateus só admite uma possessão após a expulsão de Jesus. Na Antiguidade, pensava-se que a epilepsia estava relacionada com as fases da Lua ou a um espírito de doença.

Segundo anúncio da Paixão (Mt 17, 22-23)
Este é segundo anúncio da Paixão, em que Jesus volta a reforçar aos discípulos, o que lhe vai acontecer em Jerusalém.

O tributo do templo (Mt 17, 24-27)
Jesus, enquanto Filho de Deus e, portanto, Senhor do Templo, não era obrigado a pagar o imposto; mas quis fazê-lo por Ele e por Pedro, para evitar o escândalo. Existe também aqui uma mensagem de confiança: os discípulos têm uma relação filial com Deus, por isso não precisariam também de pagar o imposto.



2 – O Discurso Eclesial (Mt 18)
É o quarto grande discurso do Evangelho, incidente sobre a Igreja. Esboça duas orientações fundamentais: a Igreja deve tomar os pequenos e aqueles cuja fé é fraca a seu cuidado, e deve constituir-se como comunidade fraterna, graças à prática do perdão.

O maior no Reino (Mt 18, 1-5)
O maior no Reino é o que percebe a sua pequenez face à grandeza do Reino. Convidados a tornarem-se simples e dependentes como as crianças no Reino do Pai, os discípulos devem acolher também os pequeninos, ou seja, os marginalizados pela sociedade.

Escândalo (Mt 18, 6-9)
O acolhimento dos “pequenos” deve ser feito, ajudando-os a afastarem-se do mal. Tudo o que leva o discípulo ao pecado, tudo isso ele deve afastar da sua vida.
(v.7) A palavra “mundo” designa o mundo das pessoas, a humanidade, onde o mal exerce o seu poder.
(v.8) Entrar na Vida significa ter parte na salvação, na vida eterna.
(v.9) A Geena era um vale de Jerusalém onde outrora tinham sido sacrificadas crianças, pelo que era uma imagem do inferno.

A ovelha tresmalhada (Mt 18, 10-14)
A ovelha tresmalhada representa todos os membros da comunidade em risco de se perderem devido ao desprezo ou severidade dos chefes da comunidade. Por eles se deve lutar, mesmo que sejam uma minoria, para conservar a comunidade unida.

Correcção fraterna (Mt 18 15-18)
Esta passagem destinava-se a moderar o rigor com que se exigia a expulsão dos pecadores da comunidade, procurando primeiro recuperar o “irmão perdido” para a comunidade. Só se o irmão não estivesse disposto a reconhecer a sua culpa perante a comunidade, é que se daria a expulsão, pois este já não estaria na disposição de ser cristão,
(v.18) O poder de “desligar e ligar” conferido a Pedro é também comunicado aos outros ministros da Igreja, adquirindo uma dimensão comunitária.

Oração comunitária (Mt 18, 19-20)
A oração é sinal e raiz da comunhão com o Senhor Jesus Cristo, o Emanuel-Deus connosco. As decisões da comunidade devem ser tomadas em oração, pois através destas, Jesus está presente, iluminando e inspirando as decisões.

Perdão na comunidade (Mt 18, 21-35)
Esta parte passa do “irmão que peca” ao “irmão que peca contra mim”. O perdão do discípulo não deve ter limites. Esta situação é ilustrada com uma parábola sobre um servo devedor.
 (v.22) Perdoar “Setenta vezes sete” significa perdoar sempre. O perdão sem limites deve ser característica do discípulo.
(v.27) A quantia elevada significa que o servo não tinha como pagar ao seu senhor, salvando-se graças à piedade deste último.
(v.32) A soma que o companheiro devia ao servo era muito menor do que quantia que fora perdoada ao servo, logo, não devia também ele ter perdoado ao seu companheiro?
Se não perdoamos ao nosso próximo, como podemos ter direito ao perdão do Senhor? Como dizemos na oração do Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, cada um de nós deve perdoar ao seu irmão de todo o seu coração.
Nos conflitos inevitáveis, o cristão guardará um espírito de perdão fundamental que deixa a Deus o cuidado de julgar.



3 – Do poder ao serviço (Mt 19-20: Subida a Jerusalém)
Complemento do discurso eclesial, constituída por uma série de lições que convidam à conversão das relações, na passagem do domínio para o serviço. A cura dos dois cegos de Jericó é uma cena sobre vocação: estes cegos seguem Jesus no caminho para a Paixão.

Jesus e o divórcio (Mt 19, 1-9)
Jesus sai da Galileia e dirige-se a Jerusalém, onde cumprirá o destino de Messias sofredor. Ao colocarem-lhe uma questão sobre o casamento, Jesus regressa ao projecto original de Deus, em que o casamento é monogâmico e indissolúvel, explicando que os preceitos sobre repúdio de Moisés eram concessões temporárias dentro de um projecto muito maior, o projecto de Deus.

Casamento e celibato (Mt 19, 10-12)
Jesus propõe uma vocação especial, para além do matrimónio, não desmerecendo o valor deste. Aqueles que estão possuídos pelo absoluto do Reino, são capazes de prescindir do matrimónio para se dedicarem unicamente à missão.

Jesus e as crianças (Mt 19, 13-15)
Volta a reforçar a imagem dos pequenos do Reino, através das crianças. Só quem é simples e que se entrega com plena confiança é que pode entrar no Reino do Céu.

O jovem rico (Mt 19, 16-26)
Nesta passagem e na próxima, o evangelista põe em realce a relação entre o desprendimento dos bens próprios deste mundo e a salvação eterna.
O jovem procura Jesus, pois procura a salvação. É cumpridor da Lei, mas no entanto, sabe que algo ainda pode faltar. Jesus indica-lhe a perfeição da salvação: todo o que segue Jesus, além de cumprir a Lei, renuncia às preocupações da família e das riquezas.
Com isto, não significa que a pobreza é a única condição para se ser discípulo, pois existiram pessoas de elevada condição social que seguiram os ensinamentos de Jesus sem abandonarem a sua posição. No entanto, as riquezas tornam mais difícil este abandono a Deus, porque conduzem a preocupações terrenas que nos afastam da verdadeira preocupação: viver segundo a vontade do Pai.

Recompensa do desprendimento (Mt 19, 27-30)
Esta passagem conclui o episódio do jovem rico e o ensinamento que este encerra.
O dia da regeneração significa a transformação da humanidade e do universo já iniciada por Cristo, da qual os Apóstolos serão os principais agentes, como alicerces do novo povo de Israel. Essa regeneração é apresentada na forma de um julgamento, em que os Apóstolos são associados na perseguição, mas também na realeza de Cristo. Com o v.30, Jesus pretende dizer que os critérios de Deus e os dos homens são muito diferentes, como acontece nas bem-aventuranças.

Os trabalhadores da vinha (Mt 20, 1-16)
Esta parábola ajuda a compreender o v.30. Mostra que a bondade de Deus ultrapassa os critérios humanos da retribuição e que o prémio divino não coincide com o salário devido pela justiça humana. Perante uma justiça contratual, Deus junta uma justiça de generosidade, que não lesa uns, apenas dá gratuitamente, a quem Deus assim o achar.
Existe também uma mensagem dirigida aos fariseus, que excluem todos os que não consideram do povo de Deus: ainda que sejam chamados em último lugar, os pagãos, considerados impuros pelos judeus, tomarão o lugar dos judeus convertidos, que tinham sido chamados primeiro para a Igreja de Deus. Deus dá para todos a salvação sem distinções.

Terceiro anúncio da Paixão (Mt 20, 17-19)
Este é o último anúncio da Paixão e Ressurreição, antes da chegada a Jerusalém. Neste anúncio, Jesus já descreve com mais pormenor tudo o que se vai passar futuramente.

Poder e serviço (Mt 20, 20-28)
Os lugares à direita e à esquerda são os lugares mais importantes no Reino a seguir a Jesus. No entanto, só Deus pode determinar quem ocupará esses lugares. Os irmãos Tiago e João desejam “beber o cálice” sem compreender bem o que este implica. É a Paixão e crucifixão de Jesus. Também estes Apóstolos serão sofrerão pela Igreja: Tiago morreu mártir em Jerusalém, no ano 44 da nossa era, e João sofreu o martírio. A missão de Cristo na terra é a de sofrer para salvar as pessoas para o Reino do Pai, e não distribuir recompensas.
Perante o pedido dos dois irmãos, Jesus procura mostrar aos seus discípulos que a Igreja não deve seguir o modelo de poder político, mas que se deve sacrificar, servindo a Deus e à humanidade com amor, a exemplo de Jesus Cristo, Servo sofredor.

Os dois cegos de Jericó (Mt 20, 29-34)
O pedido dos dois cegos, apesar de ser um milagre físico, tem um sentido simbólico: o acesso do discípulo à luz da fé em Cristo e, iluminado por essa fé, segue Jesus na sua missão de entrega ao Pai.


18 de abr. de 2011

A CAMINHO DA CONFISSÃO DE FÉ DE PEDRO: Quem é Jesus – 3º tempo (Mt 13,53 – 16,20).


Neste terceiro tempo, passou a hora do discernimento: cada um já escolheu o seu caminho. Jesus passa então a dedicar o Seu tempo a preparar e ensinar os discípulos, fazendo-os participar da Sua actividade. No fim desta parte, que termina com a confissão messiânica de Pedro, estes discípulos aparecem já como uma comunidade sólida em torno de Jesus. E é através desta comunidade que o Pai vai revelar quem é Jesus.

Jesus rejeitado em Nazaré (Mt 13, 53-58)
Herodes e Jesus (Mt 14, 1-2)
Execução de João Baptista (Mt 14, 3-12)
Estas três passagens constituem um prólogo que realça a questão da identidade de Jesus. Os habitantes de Nazaré são cépticas acerca d’Ele, por ser filho do carpinteiro, e Herodes vê n’Ele João Baptista, ressuscitado de entre os mortos.
(13, 53-58) Jesus é rejeitado na terra onde cresceu. A partir deste ponto, Jesus já não fala a quem se fechou à Sua mensagem, prossegue com a sua actividade de Salvador (milagres). No decurso da narração, verificar-se-à um endurecimento da oposição dos líderes religiosos, preparando a cena para o último acto.
 (14, 4) Herodes, tetrarta da Galileia, ou seja, governador de um quarto do reino, tinha cometido um grave pecado, por casar com a sua sobrinha – casamento consanguíneo, repudiando a sua primeira mulher e ainda por tomá-la ao seu irmão, ainda vivo.
(14, 12) O último versículo estabelece uma relação especial entre Jesus e João Baptista, que  introduz os acontecimentos seguintes.

Jesus alimenta cinco mil pessoas (Mt 14, 13-21)
Esta passagem faz parte de um conjunto dedicado à refeição e ao pão (14, 13s; 15, 1s; 15, 32s; 16, 5s), sendo este conjunto designado, “secção dos pães”. Nesta, Jesus continua a revelar-se aos seus discípulos e associa-os mais à Sua actividade.
A narração da multiplicação dos pães segundo Mateus desdobra-se em duas tradições ou narrações, uma palestinense e outra gentílica. Mateus traça a narração desta multiplicação assente nos gestos da instituição da Eucaristia.
(v.13) A rejeição pelo próprio povo, a que se acrescenta a tragédia da execução do Baptismo, pressente o que irá acontecer a Jesus. O povo rejeita, mas Jesus ama tanto e com um Amor perfeito, que a todos dá a vida, o alimento.
(v.20) “Comeram e ficaram saciados” recorda o maná dado a Israel no deserto no tempo do Êxodo. Os doze cestos evocam o número dos Apóstolos, escolhidos e ensinados por Jesus a dar o pão da Palavra às multidões com fome. Ao mencionar as mulheres e as crianças, o evangelista acrescenta a colaboração familiar que deve ter a Eucaristia.

Jesus caminha sobre as águas (Mt 14, 22-33)
A tradição evangélica coloca a caminhada sobre o mar após a multiplicação dos pães, com uma ligação simbólica ao AT: aquele que alimentava o seu povo no deserto mostrava-se o Senhor das águas, na passagem do Mar Vermelho. A caminhada de Pedro reorienta o relato para o sentido da caminhada de fé da Igreja cristã.
(v.22-24) Jesus obriga os discípulos a embarcar, refreando o seu entusiasmo, mas também procurando incutir-lhes a importância de se retirarem para um lugar isolado e a necessidade de orar. Jesus retirava nos momentos importantes da sua missão, gostava de orar no silêncio e na noite.
(v.25) A multiplicação dos pães prefigura a Eucaristia, alimento do homem, que caminha na noite da fé, representada pela caminhada de Jesus sobre as águas, que nos diz para não ter medo desta noite, mas ter fé e seguir o Senhor.
NOTA: Na Antiguidade, as águas simbolizam frequentemente o poder do mal e da morte.
(v.28) Mateus apresenta três episódios com Pedro como figura central (14, 28-33; 16, 13-20 e 17, 24-28). Pedro representa o tipo do discípulo na sua adesão ao Mestre. Encarna o caminho de fé no coração do homem: crê, mas a sua fé continua a ser frágil.
(v.30-33) A exclamação dos discípulos reflecte um ambiente litúrgico, assim como o grito de Pedro: “Salva-me, Senhor!” O barco simboliza a Igreja: perante uma fé frágil, os crentes lutam por Cristo, agarrados pela fé e pelo amor.



Curas em Genesaré (Mt 14, 34-36)
Após retirar-se para orar, Jesus volta à missão.

Puro e impuro: Jesus e as tradições judaicas (Mt 15, 1-20)
(v.2) A tradição dos antigos é composta dos comentários à Lei transmitidos oralmente nas escolas rabínicas. Os fariseus atribuíam grande importância à purificação das mãos antes e depois das refeições.
(v. 5) A prática de dar ofertas a Deus em vez de ajudar os familiares era objecto de crítica já há algum tempo: pelas ofertas, as pessoas desculpavam-se de não ajudar os familiares necessitados.
(v.11) Jesus realça a importância da purificação interior face à purificação exterior: por muito que alguém se lave e purifique o corpo, se fala ou pensa mal do outros, não está limpo perante Deus.
(v.12-14) O escândalo dos fariseus perante as afirmações de Jesus consiste em Jesus os excluir do Reino de Deus, devido às suas obras não serem sinal da vontade do Pai.

A fé de uma cananeia (Mt 15, 21-28)
Esta passagem revela que Jesus vem, primeiramente para anunciar o Evangelho aos judeus, mas esta Palavra - o pão, a Salvação de Deus é para todos, e esta será a missão dos discípulos: evangelizar todos os povos. Esclarece também o debate precedente com os fariseus e os escribas sobre a pureza. Está a cananeia pura para comer o pão destinado aos filhos de Israel?
(v.21-24) Perante o pedido, da cananeia, Jesus recusa pois foi enviado primeiramente à casa de Israel.
(v.24-27) A mulher insiste, reconhecendo o seu estatuto de inferioridade, pedindo só “as migalhas” do “pão”, pois sabe que não tem o mesmo estatuto que os “filhos de Israel”.
(v.28) Jesus louva a fé desta mulher como digna de ser escutada. Na realidade, Jesus não pretendia recusar o pedido da mulher estrangeira, mas testar a sua fé.
Assim se vai verificando que o essencial não é a identidade sócio-cultural ou o estatuto de cada um, mas a fé em Jesus Cristo. O universalismo evangélico vai ganhando força, onde a Salvação virá para todos os que abraçarem a fé.

Curas junto do lago (Mt 15, 29-31)
Jesus realiza o Reino de Deus, trazendo a salvação a todos. Esta parte precede a segunda multiplicação dos pães.
 
Jesus alimenta quatro mil pessoas (Mt 15, 32-39)
Esta segunda narração da multiplicação dos pães dá mais relevo à compaixão de Jesus face à fome da multidão do que à instituição da Eucaristia. Desenrola-se em ambiente não-judaico, na margem oriental do lago. A referência ao número de sete cestos pode significar a perfeição do milagre e evocar a instituição do sete diáconos, escolhidos para servir às mesas, em Act 6.

Sinais dos tempos (Mt 16, 1-4)
Os “sinais dos tempos” referem-se às manifestações dos Messias, os milagres de Jesus, as Suas Palavras, a própria pessoa de Jesus, sinal por excelência. A capacidade de descobrir esses sinais faz de quem descobre um discípulo de Jesus. O sinal de Jonas constitui um anúncio da morte e ressurreição do Senhor, pois Jonas esteve no ventre da baleia três dias, e Jesus também estará três dias no ventre da terra, e depois ressuscitará.

O fermento dos fariseus (Mt 16, 5-12)
O fermento leveda a massa, tal como a Palavra anunciada faz crescer o Reino de Deus. Os fariseus e ou saduceus transmitem ensinamentos que desviam as pessoas do verdadeiro caminho, escravizando-as a rituais, levando-as a excluir os necessitados, e a afastarem-se dos verdadeiros valores do Reino.

Confissão messiânica de Pedro (Mt 16, 13-20)
Cesareia de Filipe ficava perto da nascente do Jordão, chamando-se Banias na actualidade. É o pano de fundo para este episódio central, que marca um ponto de viragem no Evangelho. Através de Pedro, os discípulos e a Igreja afirmam a condição divina de Jesus, sendo esta uma revelação divina (v. 17), ainda não compreendida, como se entenderá pela reacção de Pedro face ao primeiro anúncio da Paixão.
(v.15-16) Após a revelação de Jesus aos discípulos, este pode colocar-lhes a questão sobre a Sua identidade: para os homens e para os discípulos. Para os homens, a resposta é incerta e vaga, mas Pedro confessa Jesus como Cristo.
(v.17) Perante a resposta de Pedro, segue-se uma avaliação: A Fé correcta de Pedro não parte da sua inteligência, mas de uma revelação do Pai.
(v.18) Pedro provém da palavra grega “Kepha”, que significa “pedra”. Igreja, que vem do grego “ekklesia”, traduz a palavra hebraica “qahal”, que significa assembleia. Igreja designa a comunidade nova que Jesus vai edificar, na qual Pedro tem um papel fundamental. Esta comunidade viverá para sempre com Jesus, e será salva das forças do mal.
(v.19) Pedro tem o poder de permitir ou proibir o acesso à comunhão (“ligar ou desligar”). No discurso eclesial (Mt 18, 18), o poder de perdoar pecados e introduzir no Reino é atribuído a todos os Apóstolos.
(v.20) A interdição de dizerem que Jesus é o Messias prepara o primeiro anúncio da Paixão, que Pedro vai rejeitar devido à sua fraqueza.

A comunidade cristã reúne-se e prepara-se para a realização do projecto de salvação que vem por meio de Jesus Cristo. Já reconhece Jesus como o Messias, revelação vinda pelo Pai com a confissão messiânica de Pedro. Dá-se início à segunda parte, centrada nesta comunidade formada e no seu papel no Reino de Deus.

15 de abr. de 2011

AS PARÁBOLAS DO REINO (Mt 13, 1 – 52) - Quem é Jesus – 2º tempo


Este segundo tempo que aborda a identidade de Jesus, consiste no discurso em parábolas, dirigido àqueles que decidiram seguir Jesus. Só a estes é dada a compreensão das parábolas. Este é o terceiro grande discurso e ocupa a parte central do Evangelho. Jesus aparece como o revelador dos mistérios do Reino, do que estava escondido desde o início do mundo. É constituído por sete parábolas, número que evoca os dias da semana e a criação, sugerindo a revelação no tempo da realidade do Reino de Deus. Pode ser considerada uma oitava parábola (perfeição), no v.52.

As parábolas podem agrupar-se em dois actos:

1º acto (Mt 13, 1-33): Jesus, sentado numa barca, coloca-se longe das multidões. Todos vão ouvir, mas só os discípulos receberão a interpretação da parábola do semeador e porquê Jesus lhes fala em parábolas.
Parábolas deste acto: o semeador, o joio, o grão de mostarda, o fermento.

Entreacto (Mt 13, 34-35): A revelação das coisas escondidas.

2º acto (Mt 13, 36-50): Passa-se em casa só com os discípulos, que ouvem a explicação da parábola do joio e as três últimas parábolas. Esta separação em actos representa dois grupos – os que percebem nas parábolas apenas histórias bonitas, e os que compreendem o seu sentido profundo, porque seguem Jesus.
Parábolas deste acto: o tesouro, a pérola, a rede.

Epílogo: Compreender as parábolas (Mt 13, 51-52).


O semeador (Mt 13, 1-9)
A parábola do semeador parece dirigir-se a pessoas decepcionadas: ao ver o fracasso da Sua pregação, Jesus quer comunicar-lhes a sua confiança: anuncia a vinda do Reino; os fracassos nada provam, porque a colheita chegará um dia.
(v.3-8) A parábola do semeador mostra o rendimento da semente - a Palavra - consoante o terreno - o coração do homem - que a recebe. Esta parábola é um apelo ao discípulo para procurar ser “terra boa” e não se deixar desviar pelas seduções e distracções do mundo, que o desviam da Palavra de Deus.
(v.9) A recomendação reforça a necessidade de prestar atenção ao que Jesus diz, para compreender o ensinamento e abrir-se à modificação que este traz na vida.


O porquê das parábolas (Mt 13, 10-17)
Explicação da parábola do semeador (Mt 13, 18-23)
(v.11) O conhecimento que é dado não é um direito adquirido, mas uma relação que coloca o discípulo na dependência do Mestre.
(v.12) Quem já possui o conhecimento do Reino, terá uma compreensão ainda maior, mas quem não tem essa abertura de coração, o pouco que tem não perdurará, devido à sua inconsistência interior.
(v.13-15) É necessária a capacidade para compreender o Reino de Deus, que advém do acolhimento da pessoa ao ensinamento de Jesus.
(v.16) À condenação da cegueira dos judeus, opõe-se a bem-aventurança dos discípulos, que vêem e ouvem os acontecimentos do Reino.
(v.18-23) Mateus insiste na compreensão da mensagem: a inteligência espiritual levará a viver a mensagem na prática do dia-a-dia.

O trigo e o joio (Mt 13, 24-30)
O Reino é um mundo complexo, onde o bem e o mal podem ser confundidos no caminho com facilidade. Por isso, é necessário paciência e prudência, para não decidir mal.
NOTA: O joio é uma erva daninha e nociva à agricultura.

O grão de mostarda (Mt 13, 31-32)
O fermento (Mt 13, 33)
Ambas as parábolas salientam o crescimento formidável do Evangelho:
(v. 31-32) O tamanho do grão de mostarda é exagerado para salientar o contraste entre a pequenez do início e a plenitude do fim, pressupondo a esperança de Israel num fim glorioso, que culmina na vinda do Senhor.
(v.33) Esta parábola põe em contraste a pequena quantidade de fermento e a massa a levedar. O dinamismo do Reino é apresentado como princípio de transformação: uma pequena pitada de fermento faz levedar toda a massa.

Função das parábolas (Mt 13, 34-35)
Tal como a vara de Moisés, o cordeiro imolado no lugar de Isaac, instrumentos de salvação criados por Deus, Mateus acrescenta o Reino do Céu anunciado por Jesus.

Explicação da parábola do trigo e do joio (Mt 13, 36-43)
Existem dois Reinos: o Reino do Pai, que só existe como tal no fim dos tempos e o do Filho do Homem que existe já e se identifica com o mundo e com toda a humanidade: contém tanto pecadores como justos, já que este Reino e o do maligno mutuamente. A questão principal não é saber se é ou não cristão, se é ou não da Igreja, mas sobretudo se se cumpre a vontade do Pai celeste. Cada um, cristão ou não, será julgado pelo seu comportamento.

O tesouro e a pérola (Mt 13 44-46)
Uma perícopa, que contém duas parábolas, que acentuam o valor do Reino, através do tesouro e da pérola e a alegria da descoberta, bem como o imperativo de vender, deixar tudo pelo Reino.

A rede (Mt 13, 47-50)
Tal como a parábola do joio, esta parábola salienta a coexistência de bons e maus até ao fim dos tempos, mas sublinha, mais do que a paciência até à colheita, o juízo de Deus sobre as exigências de pertencer ao Reino.

Conclusão (Mt 13, 51-52)
O verbo “compreender” indica que a palavra de Jesus é o centro do Evangelho: escutar e compreender é fazer a vontade de Deus. O ouvinte é comparado a um pai – doutor da Lei, que tira do AT e do NT a doutrina que aplica às necessidades da sua comunidade. Qualquer responsável cristão tem esta missão, de actualizar na Igreja o sentido do Reino inaugurado por Jesus.